O hemograma é o exame laboratorial mais pedido na rotina veterinária — e um dos que mais geram dúvida na hora de interpretar. Saber ler o eritrograma, o leucograma e a contagem de plaquetas, além dos índices hematimétricos (VCM, HCM, CHCM, RDW), é o que transforma uma folha de números em diagnóstico.
1. Eritrograma — série vermelha (hemácias, hematócrito, hemoglobina e índices)
2. Leucograma — série branca (os cinco tipos de leucócitos)
3. Plaquetograma — contagem de plaquetas
Eritrograma: a série vermelha
O eritrograma avalia a massa de hemácias por meio do número de hemácias, do hematócrito (Ht) e da hemoglobina (Hb). Quando esses valores caem, há anemia; quando sobem, policitemia/eritrocitose. O passo seguinte — e o mais importante — é classificar a anemia pelos índices.
VCM (Volume Corpuscular Médio) — o tamanho da hemácia
• VCM alto (macrocítica): sugere regeneração (reticulócitos jovens, maiores) — típico de anemia regenerativa.
• VCM baixo (microcítica): classicamente deficiência de ferro / anemia ferropriva e quadros crônicos.
• VCM normal (normocítica): comum em anemia não regenerativa de doença crônica.
CHCM (Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média) — a “cor” da hemácia
• CHCM baixa (hipocrômica): hemácias com menos hemoglobina — regeneração ou deficiência de ferro.
• CHCM normal (normocrômica): dentro da referência.
• CHCM “alta”: em geral é artefato (hemólise, lipemia, corpúsculos de Heinz), não um aumento verdadeiro — sempre desconfiar de erro pré-analítico.
HCM e RDW
O HCM (Hemoglobina Corpuscular Média) acompanha o CHCM no eixo da cromia. O RDW mede a variação de tamanho das hemácias (anisocitose): quando elevado, indica população mista — sinal precoce de regeneração.
A pergunta-chave de toda anemia é: é regenerativa ou não? A resposta vem da contagem de reticulócitos, apoiada por VCM alto e CHCM baixo (padrão regenerativo).
Leucograma: a série branca
O leucograma conta os cinco leucócitos e ajuda a diferenciar inflamação, infecção, estresse e doenças imunológicas.
• Neutrófilos — sobem na inflamação/infecção bacteriana. O desvio à esquerda (neutrófilos jovens/bastonetes) indica demanda intensa.
• Linfócitos — linfopenia é comum no leucograma de estresse (cortisol); linfocitose pode indicar estímulo crônico.
• Monócitos — inflamação crônica e necrose tecidual.
• Eosinófilos — alergia e parasitismo.
• Basófilos — raros; associados a alguns quadros alérgicos e parasitários.
Leucograma de estresse x inflamatório
Um padrão muito frequente é o leucograma de estresse (neutrofilia madura + linfopenia + eosinopenia, por cortisol), que NÃO significa infecção. Diferenciá-lo do leucograma inflamatório (com desvio à esquerda) evita antibiótico desnecessário.
Plaquetas
A trombocitopenia (plaquetas baixas) pode indicar consumo, destruição imunomediada, infecção (ex.: erliquiose) ou falha de produção. Sempre confirmar agregados plaquetários no esfregaço antes de valorizar uma contagem baixa automatizada. A trombocitose costuma ser reativa.
Erros pré-analíticos: desconfie antes de tratar
Boa parte das “alterações” do hemograma é artefato: hemólise, lipemia, coágulo, demora no processamento e agregação plaquetária. Antes de valorizar um índice fora da referência — sobretudo CHCM alto e plaquetopenia —, vale revisar o esfregaço e a qualidade da amostra.
Perguntas frequentes
Hemácias menores que o normal (microcitose), classicamente ligadas à deficiência de ferro e a quadros crônicos. Deve ser interpretado junto ao Ht, ao RDW e à clínica.
Quase sempre é artefato (hemólise, lipemia, corpúsculos de Heinz), não um aumento real de hemoglobina. Reavaliar a amostra antes de tirar conclusões.
Pela contagem de reticulócitos. VCM alto + CHCM baixo + RDW elevado apoiam o padrão regenerativo.
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